A moda que não está no Style.com

Não acredito que o mais valioso da criação na moda está nos grandes portais de moda, como o Style.com, e das grandes revistas. Concordo que ali está a informação que influencia o mundo inteiro e determina todo o caminho comercial do que veremos nas próximas estações. Valorizo a informação de moda massificada, dissipada para os quatro cantos do mundo, mas busco a minha própria construção de informação. Quero conhecer pessoas, entender o que elas propõe para a sociedade e de que maneira enfrentam sua realidade para atingir seus sonhos e ideais. Saio sempre mais rica das entrevistas, são experiências pessoais que vou levar para sempre comigo, na minha bagagem. Infelizmente a mensagem passada pelo olhar não há como ser transmitida por um texto ou mesmo em vídeo, porque essas conexões são estabelecidas entre pessoas e esse foi o tema principal que pautou essa última viagem que fiz. Não foi a pauta que determinei, até mesmo porque fui aberta para conhecer, ouvir e absover a mensagem que cada um gostaria de passar, mas todos citaram nas conversas a importância nas relações pessoais. As conversas fluiram, como se eu conhecesse todos há muito tempo, sem cerimonias ou mesmo barreiras que uma câmera algumas vezes impõe. Eles foram abertos, transparentes e contaram sobre sua vida, visões e desejos.

Fui ouvinte, me preparei para isso. Acredito que o conhecimento aliado à curiosidade é uma ótima formula para conduzir uma boa entrevista e foi assim que agi, sem pretensões, apenas direcionei como uma ouvinte curiosa. O resultado final me surpreendeu, tenho certeza de que irão gostar.

Minha seleção aconteceu com muita pesquisa, procurei por jovens profissionais, que estão buscando seu espaço na moda com boas coleções. Priorizei aqueles que possuem colaborações e já tem visibilidade, porém não estão estabelecidos como uma grande marca. Quis entender como esse processo acontece em países como Holanda e Republica Tcheca, que fogem do eixo França – Itália – Inglaterra. Queria traçar um comparativo com a realidade brasileira, ver a dimensão das nossas dificuldades.

Em Praga conversei com Pavel Brejcha, 35 anos, um estilista com histórico de dar inveja porque já passou um ano na Balenciaga e oito meses com Jean- Charles de Castelbajac. Depois megulhou no processo oposto das maisons, atuou como designer de sapatos na Zara. Pavel é uma pessoa profunda, marcada pelo comunismo, que o fez crescer em um vilarejo próximo à Praga. O contexto histórico/ social reflete nas escolhas e no processo criativo, a bagagem é densa e nos faz refletir nas reclamações que vemos aqui no Brasil e não são nada perto do que um estilista em Praga vivencia.

A caminho da casa de Pavel, em Praga.

Pavel é uma mistura de timidez com força. Pelo olhar mostra o coração enorme que possue e o talento criativo absurdo que está tornando um dos nomes mais importantes do seu país.

Em Amsterdam, Nick Rosenboon foi um dos estilistas selecionados para os nossos Docs. Quando chegamos em sua casa estava tudo pronto para nos receber, havia separado todo o material que mostrava seu processo criativo. Nick estava nervoso para gravar, mas em segundos a tensão passou e contou tudo que planeja para sua carreira. Ele, graduado no Fashion Institute Arnhem, já passou por grandes marcas como a Just Cavalli e percebeu que busca seu próprio caminho. Largou a experiência e agora segue com suas criações. A qualidade das peças produzidas são de fazer inveja para as melhores marcas brasileiras, os sapatos também são bem desenvolvidos, fruto de estudo de design. (Tudo isso vocês verão nos Docs.)

Nick também abriu as portas do seu apartamento antigo e lindo, localizado na parte mais moderna de Amsterdam. Com intimidade, fez com que nos sentíssemos em casa, apresentou seu companheiro e contou toda a saga para encontrar um apartamento tão amplo como o dele na cidade. A entrevista tomou uma manhã inteira, deveria ser uma hora, mas foi agradável demais.

Ainda em Amsterdam conhecemos Janneke Verhoeven, que aos 25 anos está com grandes colaborações, como ShowStudio de Nick Knight, onde assinou o figurino de uma vídeo veiculado no portal Nowness (do grupo LVMH). Uma típica garota holandesa, que chegou a sonhar em trabalhar com alguma das marcas japonesas (já participou da semana de moda de Tóquio como convidada especial), mas desistiu quando percebeu que ama demais o Dutch lifestyle para largar tudo e mudar de país. Mas essa desistência não muda a característica de sua criação, que lembra muito as marcas japonesas.

Janneke é calma e atenciosa, despretensiosa (característica de todos que entrevistei) mostra que vive a fase da experimentação do seu trabalho. Falou muito sobre a importância de conviver com artitas, pessoas criativas que a façam respirar esse universo no seu cotidiano, por isso adora o fato de dividir apartamento com um casal, sua melhor amiga e o namorado, que é um talentoso pintor. O apartamento dos três transpira criação, em cada cantinho tem um detalhe e um objeto que instiga e nos faz parar para olhar com atenção. Fotografamos tudo para postar no site da Catarina, na seção Jet Set, ainda essa semana.

Em Paris, entrevistamos muitos designers, dos mais diferentes lugares do mundo. Todos com lançamentos de muito peso. A foto abaixo mostra o Léo filmando a coleção de Malene Oddershede Bach, que vem de Copenhague, mas desfilou na última semana de moda de Londres. Era uma das estilistas presentes no Vaux Hall Fashion Scout, que reúne em um showroom 16 marcas. Foi lá ainda que entrevistamos a Andreia Chaves, nossa brasileira linda que está se destacando com seus sapatos jóias. Vcs acreditam que a Andreia foi a única que ficou sem foto? Fizemos o Doc e as fotos acabaram passando, já que ela estava super solicitada. Mas no Doc vocês poderão conhecer toda a trajetória dela e  o plano para a carreira.

Foram vinte dias de pesquisa e imersão na criação que vai além da passarela. Mais de 400 GB de material bruto e reflexões que me acompanharão por muito tempo. Vejo as inúmeras possibilidades que temos no Brasil, com uma nação que tem sede de novidades e está aberta à criação. Uma economia cada vez mais forte e uma infinidade de projetos e concursos e abrem as portas para os novos criadores. Vamos reclamar de quê? Agora, quando eu ouvir um estudante de moda reclamando de falta de oportunidade, vou sugerir que more em Praga por um tempo para conhecer a verdadeira dificuldade de lidar com a herança do comunismo.  Nós temos tudo nas mãos para seguirmos em frente e fortalecer o DNA brasileiro na moda, mas talvez esse seja o maior problema. Quanto temos tudo ao nosso favor, não valorizamos as oportunidades como deveríamos.

Se você também que ir além da informação massificada, acompanhe os Docs que serão postados no nosso site da Catarina, que está com novo formato e layout (lindo!). Nós iremos adorar compartilhar essa informação com os nossos leitores. <3

6 Respostas

  1. Nathalia Agra

    Obrigada Pati, sempre nos trazendo as mais novas informações e da melhor qualidade! Estou louca para ver os docs.. beijos

    10 de outubro de 2011 às 2:43 pm

  2. Nat, que saudades de vc. Obrigada pelo carinho, tenho certeza que vc vai amar os Docs.
    Quando vc virá aqui dar um oi, hein? beijossss

    10 de outubro de 2011 às 2:58 pm

  3. adorei! =)

    10 de outubro de 2011 às 3:44 pm

  4. Maju Rezende

    Pati,

    Belo texto. A abordagem fantástica. Estou louca para ver os docs. Tenho usado muito o material da Catarina e do Bureau de Tendências em minhas pesquisas de mercado.

    Parabéns pelo lindo trabalho. É muito bom vê-la colocando em prática tantos projetos sonhados no início da Catarina. Orgulho de você. :)

    Desejo ainda mais sucesso e conquistas.

    Bjão

    10 de outubro de 2011 às 3:48 pm

  5. Nossa Pati que bela pesquisa!! Parabens mesmo…Vc buscou a verdadeira essencia de cada designer! Confesso que nao gosto de ficar limitada somente em revistas/ sites direcionados especificamente na moda…Na verdade, minhas revistas preferidas nao sao de moda!
    Estou adorando o teu cantinho!
    Bjo
    Manu

    10 de outubro de 2011 às 10:03 pm

  6. Olá Pati! Gostei demais desse post que fiquei com imensa vontade de ver os Docs! E gostei muito da sua mensagem no final, pois concordo plenamente com o que você disse. O Brasil está numa fase de grande otimismo em relação à moda e acredito que artistas conseguem alcançar sucesso com muito mais facilidade do que em inúmeros outros países. Fiquei feliz por ter encontrado um blog com uma visão um pouco mais diferenciada do que os demais!
    bjx Jules

    19 de outubro de 2011 às 3:32 pm

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