História do jeans – parte 1

Essa semana tem Mostra Moda Jeans, o maior evento de jeanswear do Brasil.

Em homenagem, aqui está a primeira parte da história do jeans.

A mina de ouro de Strauss

Em 1848, um agricultor norte-americano chamado James W. Marshall descobriu um veio de ouro próximo a San Francisco, Califórnia. O achado foi alardeado por diversos jornais, despertando o interesse de mineradores e aventureiros em busca de riqueza. O acontecimento também acabaria gerando oportunidades para muitos profissionais, como prestadores de serviço e comerciantes. Entre eles estava o jovem Levi Strauss, de 24 anos, vindo da Bavária, centro da Alemanha. Inicialmente, Strauss pretendia vender aos mineradores uma espécie de lona, muito semelhante ao brim de Nimes, para ser utilizada em tendas e toldos. Entretanto, o produto começou a acumular poeira nas prateleiras, devido à saturação do mercado.

Foi aí que Strauss resolveu botar a cabeça para funcionar e teve uma idéia genial. Percebendo a insatisfação dos mineradores com a falta de durabilidade de suas roupas de trabalho, Strauss concluiu que era necessário disponibilizar peças mais resistentes. Mas como? A resposta estava debaixo de seu nariz. Ou melhor, em cima de suas prateleiras: utilizando sua lona encalhada, o jovem comerciante confeccionou uma série de calças, que logo ganharam grande popularidade na região. O primeiro problema estava resolvido, mas em breve surgiria outro: apesar de resistentes, as peças eram extremamente desconfortáveis e pouco atraentes.  Em busca de um tecido que fosse capaz de solucionar a questão, unindo maleabilidade e resistência, Strauss encontrou o denim, velho conhecido dos marinheiros genoveses.

A combinação deu certo, e aos poucos a demanda cresceu, levando Strauss a fundar a Levi Strauss & Co, em parceria com seus irmãos e cunhados. Nessa altura, a nova peça já era um grande sucesso. Mas ainda faltavam algumas das características que consagrariam o design do jeans com o passar dos anos. 

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Retrato: James Marshall

 O design do século

Em 1872, Jacob Davis, um fabricante de capas para eqüinos, escreveu uma carta para Levi Strauss. Ela falava sobre os problemas que os usuários estavam tendo com os bolsos de suas calças, que invariavelmente se soltavam com o uso. E apontava uma solução: unir bolso e calça com os mesmos rebites que eram utilizados nas correias para cavalos. A idéia, é claro, não saiu de graça. Strauss pagaria a patente da invenção e, a partir de então, se tornaria sócio de Davis.

 O primeiro lote de calças com a novidade recebeu o código 501, dando origem ao nome do mais famoso modelo da Levi’s. Os outros detalhes surgiram aos poucos. Os botões metálicos foram criados em 1860. A etiqueta de couro, posicionada no cós da calça, estrearia em 1886. Já a coloração azul índigo, provavelmente a característica mais marcante do jeans, viria somente em 1890. Foi mais uma idéia de Strauss para tornar seu produto mais atraente. A tonalidade é proveniente da raiz de uma planta chamada Indigus, originária da Índia. Os bolsos traseiros, por sua vez, só surgiriam duas décadas depois, em 1910. 

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 Retrato: Jacob Davis.

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Cowboys e soldados

Com o fim da corrida do ouro, o jeans ganharia popularidade entre os cowboys norte-americanos. Esses famigerados desbravadores do oeste seriam posteriormente retratados nos filmes estilo western hollywoodianos dos anos 30, o que acabou ajudando a criar uma aura de liberdade em torno do tecido. Passar férias em ranchos do oeste virou moda, e todo mundo fazia questão de voltar para sua casa trazendo um jeans em sua mala como lembrança. Quem também ajudou a construir uma imagem de virilidade em torno do jeans foram os soldados norte-americanos da Segunda Guerra Mundial. O tecido era utilizado na confecção de uniformes e, por vezes, usado pelos soldados quando estavam fora dos campos de batalha. Após o triunfo dos Aliados, os norte-americanos se tornaram bastante populares na Europa, de tal forma que tudo o que estivesse a eles relacionado se tornava um grande sucesso. Com o jeans não seria diferente, e o tecido rapidamente se espalhou pelo Velho Continente. 

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James Jeans

Cowboys e soldados foram importantes, é verdade. Mas ninguém contribuiria tanto para a mistificação do jeans quanto o cinema. Baseados nas histórias de motoqueiros que rodavam a Califórnia, no espírito desajustado da geração beat e nas subculturas das metrópoles norte-americanas, diversos longas-metragens exploraram a rebeldia da juventude dos anos 40.

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 Aqui James Dean e seu look arrasa corações.

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Marlon Brando também não ficava para trás.

Esses filmes lançaram para o estrelato artistas como Marlon Brando (O Selvagem) e James Dean (Juventude Transviada), verdadeiros anti-heróis que preencheram o imaginário de milhares de jovens em todo o mundo com suas camisetas e jeans sujos e maltratados.  A partir daí, o jeans passaria a ser peça obrigatória para rebeldes e desajustados, a ponto de ser banido de escolas e proibido em lugares públicos, como cinemas e restaurantes. O jeans deixava de ser uma simples peça de roupa e se transformava em um veículo ideológico: ostentar uma calça feita com esse tecido era uma forma de protestar contra o establishment e a conformidade. Essa onda não passou despercebida pelas companhias e confecções, dando origem a novas marcas, como Lee e Wangler, que passaram também a disputar uma fatia do mercado. O caso de amor entre jeans e ideologia seguiria forte durante os anos 60, graças, em parte, à acessibilidade e à praticidade do tecido. Essas características atraíram os hippies, adeptos do desprendimento dos bens materiais e da customização das roupas. Foram eles os primeiros a enxergar no jeans uma possibilidade para diferentes peças, modelos e estilos, criando, entre outras coisas, as famosas calças boca de sino, com detalhes coloridos e psicodélicos. É nessa época também que o tecido deixa de ser restrito ao universo masculino e passa a conquistar o visual das mulheres. Mas a revolução causada pelo jeans não ficaria restrita apenas à esfera comportamental. A partir dos anos 70, ele iria transformar também a própria indústria da moda, tomando conta das passarelas e introduzindo o conceito de estilo casual. 

2 Respostas

  1. Parabéns pela super postagem sobre história do jeans. Tenho acompanhado o trabalho de vcs, da luta pela moda de Santa Catarina. Tenho tentado fazer alguma coisa em Joinville, onde morro e trabalho como consultora de moda e personal stylist, mas não é fácil.

    um abraço,

    katia fortuna

    3 de março de 2008 às 2:55 pm

  2. Pingback: SC MOSTRA MODA JEANS 1: História do Jeans « FORA DE MODA

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